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  • Ana Carolina Serpa

Bartleby, o mais desamparado dos homens




Quem é Bartleby? Um louco, um profeta, um coitado, um doente, uma vítima da sociedade? Sem origem e sem passado, sobre ele nada se sabe, contamos apenas com o testemunho do narrador da novela de Herman Melville, que busca descobrir o enigma desse inquietante personagem. Sem conseguir enquadrá-lo nas categorias acima, resta-lhe compartilhar o relato sobre como esse simples copista produziu um impacto profundo em sua existência, desestabilizando a ordem de um escritório em Wall Street.


Do narrador, não sabemos o nome, apenas que é, conforme sua própria descrição, um advogado reconhecido por sua prudência, meticulosidade, pouca ambição e aversão a conflitos. Necessitando de um novo escrivão, contrata Bartleby na esperança de que aquele homem de aspecto sossegado pudesse influenciar beneficamente o comportamento de seus outros dois empregados, os excêntricos Nippers e Turkey. Os copistas compõem um par de opostos perfeitamente harmonizado. Enquanto Turkey é um ótimo funcionário pela manhã e imprestável à tarde, Nippers começa a ser útil ao patrão após o almoço. Os previsíveis maneirismos da dupla, entretanto, não colocam em risco o funcionamento do escritório, causando problemas facilmente contornáveis pelo patrão.


Instalado na sala do chefe, separados apenas por um biombo, o ambiente de trabalho de Bartleby assemelha-se a uma cisterna, com uma única vista: o muro de tijolos do prédio ao lado. Desempenhava com discrição e dedicação o “árido e seco ofício de copista” até o terceiro dia, quando após uma abrupta ordem do chefe para que conferisse um documento, procedimento de praxe em um escritório de registros, anunciou, “com voz amena e firme”: “preferiria não fazer”. A frase produz um efeito cômico no leitor e um profundo estranhamento no patrão. O advogado estava preparado para tudo, menos para aquela insólita colocação. Supunha que “um pedido feito segundo o costume e o bom senso” seria prontamente acatado. Em caso de insubordinação, possuía uma saída pronta, bastaria demiti-lo. Mas não havia nada de humano em Bartleby, nenhuma paixão na resposta. Como reagir a um endereçamento dessa ordem?


O advogado coloca em dúvida o seu próprio juízo: teria sido adequado o pedido? Os demais funcionários reforçam sua posição e o incitam a exercer sua autoridade, enquanto Bartleby progressivamente se recusa a cumprir suas obrigações, sem ao menos lhe apresentar alguma justificativa que possibilitasse um arranjo para o conflito. O narrador procura desesperadamente um sentido para aquela estranha situação, em que já não era mais soberano em seu escritório. Em uma das passagens mais divertidas, atribui a recusa do funcionário em desempenhar suas atividades a uma possível cegueira decorrente do esforço empreendido nos primeiros dias de dedicação ao trabalho. Por fim, recorre à crença de que agia sobre o copista uma influência superior, de ordem mística ou orgânica. Com esses subterfúgios, mantinha a ilusão de controle sob o véu da compaixão e da indulgência.


Preferindo não aceitar a ajuda do advogado e preferindo também não desempenhar suas funções, Bartleby torna-se completamente inútil. Pior, começa a representar um perigo, uma ameaça de contágio, com sua expressão “preferiria não fazer” passando a circular no ambiente, mesmo em situações inadequadas. Sem conseguir se livrar daquele obscuro hospedeiro, o advogado rendia-se ao estranho pacto.


Bartleby passava o dia a contemplar o muro; a autoridade desmoronara, nenhuma ameaça de punição seria capaz de demovê-lo. O advogado havia se conformado com o que seria seu papel neste mundo: proporcionar um lugar a Bartleby. O arranjo prosseguiria assim não fosse o abalo em sua reputação profissional. Em um devaneio, o narrador vislumbra a possibilidade de Bartleby ter vida longa, vivendo mais do que ele e adquirindo o direito de habitar perpetuamente o escritório. Atingido em sua imagem, decide se afastar daquela incômoda visão. Diante da recusa de Bartleby em partir, decide ele mesmo abandonar o lugar, mudando o escritório de endereço. Inflexível, Bartleby permanece onde está. O novo inquilino aciona o advogado para solucionar o incômodo. Sem acordo, Bartleby acaba preso por vadiagem. Preferindo não comer, passa seus últimos dias a contemplar o muro da prisão.


O advogado ainda realiza um último esforço na tentativa de compreender o que levara Bartleby a agir de tal forma e apresenta a única informação que descobrira sobre seu passado. Antes de se tornar copista, ele havia trabalhado na Repartição de Cartas Mortas, separando as correspondências que não encontraram seu destinatário para serem queimadas. Supõe, então, que semelhante emprego poderia ter intensificado sua propensão ao desamparo, com o contato com as letras mortas aproximando-o ainda mais de seu destino. O boato sobre sua vida pregressa, entretanto, não pacifica o conflito, como revela o clamor final do narrador: “Ah, Bartleby! Ah, humanidade!”.


Bartleby certamente é a figura central desta intrigante novela, seu mistério prossegue ressoando no leitor após as páginas se fecharem, inspirando existências mais dispostas a preferências do que a regras. Porém, destaco neste pequeno texto a figura do narrador sem nome, que poderia ser qualquer um de nós. Personagem que acreditava possuir um conhecimento de si, que parecia ter encontrado seu lugar no mundo, mas que é subitamente abalado quando seu caminho se cruza com o daquele estranho sujeito. As tentativas do advogado de resolver o conflito e voltar à sua estimada normalidade expõem as vias que nos aproximam e nos afastam de nosso encontro com o próprio desamparo.


É na condição de enigma que Bartleby abalará as certezas e a paz laboriosamente conquistada pelo advogado. A princípio, o narrador reconhecerá no copista um semelhante, alojando-o, por isso, em sua sala. Acreditava também que sua presença seria capaz de recompor o equilíbrio de forças prejudicado em função das excentricidades dos demais escrivães. Assim, diante da suposta falta de sentido e de racionalidade das atitudes do copista, o narrador colocará em dúvida o seu próprio senso de realidade. Mas, afinal, onde reside o absurdo? Na não observância das normas ou na ordem enunciada? Recusando-se a copiar, Bartleby empreende algo novo, inapreensível. Sua inflexibilidade impele o advogado a se mover. Nesse percurso, recorrerá às mais diversas estratégias: à compreensão, à caridade, à crença, à negação, à aceitação... Porém, quando a sua identidade é atingida, a presença daquele incômodo inquilino se torna insuportável e o leva à fuga. Mas não há fuga possível, Bartleby já não habita um espaço físico, rompeu os limites do muro.


Ana Carolina Serpa é psicanalista do Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos de Juiz de Fora - EBEPJF.

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