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  • Heitor Lobo de Mendonça

Relações e Atualidade

Este é um texto condensado e adaptado da palestra proferida pelo psicanalista Heitor Lobo de Mendonça, no evento “Os Laços de Amor na Contemporaneidade”, realizado pela Sociedade de Estudos Psicanalíticos de Juiz de Fora no dia 24/06/2005.



Blue Night, 1914, Edward Hopper



Convidado para falar sobre o tema "Os Laços de Amor na Contemporaneidade", uma das questões em que pensei foi justamente a que diz respeito ao termo contemporaneidade. Optei em utilizar o termo atualidade por entender que desta maneira ficaria melhor contextualizado. Os termos contemporâneo e pós-moderno envolvem grandes e vastas discussões sociológicas, e o nosso tempo é curto. Tentarei articular o que penso sobre a atualidade, a partir de três pontuações: clínica, experiência cotidiana e uma lenda. Antes de fazer estas pontuações, gostaria de fazer um breve comentário: Na década de 20, Freud escreveu um texto, o qual considero fundamental para tentarmos entender o discurso da ciência, intitulado de "O Futuro de uma Ilusão ". Neste texto Freud faz uma defesa apaixonada da ciência, e ao final, ele diz que se não for na ciência você não achará resposta em lugar algum. É assim que ele termina o texto. Só que esta ciência, defendida por Freud, é uma ciência da modernidade. Freud pensava que a partir da construção de um saber tem-se um poder. Para ele, a psicanálise era uma ciência e, portanto, deveria construir um saber que pudesse ter os poderes para atuar no social . Poder para modificar, para fazer com que o homem fosse mais feliz, sofresse menos e que as histéricas, na sua linguagem corporal, pudessem ser escutadas e tratadas. A partir disso podemos pensar que ciência era essa? E que ciência é esta que temos hoje? É lógico que a nossa ciência de hoje vai se originar naquele contexto em que Freud estava inserido. Há um texto de Wálter Benjamim, onde o tradutor faz uma referência a palavra alemã gewald (poder), a respeito da sua significação. No alemão, essa palavra tem dois sentidos, ou seja, dependendo do contexto utilizado pode ter a conotação de poder ou de violência. Freud vai usar no sentido de poder, e, hoje, a nossa ciência, se pensarmos bem, vem utilizando no sentido de violência, ou seja, de se imiscuir na maneira de viver, de delimitar limites, quase que um novo higienismo, que diz o que você deve fazer, o que você deve consumir, o que você deve viver, ou seja, o que você deve.


Agora, citarei as três pontuações que me referi no início da apresentação:


Pontuação Clínica: Uma paciente jovem (por volta de 21 anos), com um discurso muito comum, para quem é analista, e que consiste numa queixa constante em relação aos relacionamentos, ou seja, a repetição das noitadas, das ficadas e no domingo pela manhã as constatações de que se excedeu muito, beijou muito, bebeu muito, transou muito, ou seja, tudo muito! Mas, está só. Aparentemente o discurso, apesar das queixas, parece justificar esse estilo de vida como sendo algo dos jovens e com o velho chavão “todo mundo faz assim”. Porém, numa determinada sessão ela chega extremamente eufórica e me diz que um dos “ficantes”, ao final da noite, além de lhe dar o nome, não lhe deu o número do celular e sim o do telefone fixo de sua residência. Tal procedimento por parte do rapaz criou na paciente a certeza de que ali havia um compromisso mais sério. Resolvi questionar se tal interpretação, tão otimista, se baseava no fato dele haver lhe dado o nome e mostrado um interesse a mais. Mas, não me surpreendendo muito, ela responde que não! O que havia deixado-a tão feliz e esperançosa era o fato dele ter dado o telefone fixo.


Pontuação do Cotidiano: Estava outro dia, parado com o meu carro, no sinal de trânsito da Av. Rio Branco com Av. Independência (atual Itamar Franco), quando um entregador de panfletos de propaganda me deu um. Logo depois, outro rapaz me entregou outro. Enquanto esperava o sinal abrir resolvi olhar. Um fazia propaganda de um restaurante que servia, em promoção, um rodízio de picanha e pizza e o panfleto continha as fotos dessas iguarias. O outro apresentava uma jovem, só de calcinhas, com um belíssimo corpo, e o panfleto dizia que ela estaria disponível numa determinada casa de espetáculos da cidade (só não sei se para rodízio também).


Pontuação da Lenda: Em um artigo intitulado “A Psicanálise e o domínio das paixões”, a psicanalista Maria Rita Kehl faz referência a uma lenda do século XII. A lenda do código do amor cortês. Segundo essa lenda, que vem com a tradição do Graal e do Rei Arthur, um cavaleiro bretão encontra o código do amor amarrado à pata de um falcão, que ele deverá capturar e levar como prova de amor para a sua amada. Depois de muitas aventuras e peripécias ele consegue realizar o seu intento. Tal código era composto de 31 itens que versavam sobre a arte de amar. Porém, para a minha comunicação o que me interessa é o item 29 que diz: “O hábito muito excessivo dos prazeres impede o nascimento do amor”.


Estas três pontuações, a moça que entende que a paixão, o amor é marcado a partir de um telefone fixo, o sinal onde as pessoas vendem picanha, pizza e mulheres, e a lenda que aponta, já no século XII, que os excessos impedem as relações ou laços de amor. Os dois primeiros fatos me fizeram pensar na fragilidade dos laços amorosos e a lenda me fez refletir sobre a sabedoria de homens que viveram no início da idade média, portanto muitos séculos antes de Freud, começar a questionar o destino dos excessos da pulsão. Cada uma das pontuações me fez pensar, também, num pensador. No fragmento do caso, o que me veio à mente foi Marx. Ele tem um conceito que não tem muito a ver com as relações humanas, mas podemos tentar fazer uma aproximação. É um conceito que se chama reificação, em que você transforma a coisa, humaniza a coisa e coisifica o humano. Este conceito Marx empregou em um sentido econômico, mas pode ser aproximado das relações de hoje. Tanto que o termo original de Marx era máquina, não coisa. Coisa vem a partir de Hegel e, portanto, a questão da reificação aponta exatamente para esta questão: por que o telefone fixo é o que simboliza o laço de afeto e não o nome do sujeito, ou o interesse que o sujeito demonstrou? O telefone fica no lugar da coisa que se humaniza, e o humano está se coisificando. No caso das propagandas, pensei em Debord, sociólogo francês, e sua sociedade do espetáculo, pois a elevação da mulher e do sexual a uma ordem de mercadoria e sua equivalência a picanha e a pizza, inevitavelmente, nos faz pensar em objetos descartáveis, como qualquer objeto vendido nos supermercados e divulgados pela mídia. A lenda já aponta para alguma coisa mais positiva, e que me remeteu ao pensamento de Freud, em seu texto “O Mal-Estar na Civilização”, onde ele aponta essa questão nos dizendo que um dos remédios para os excessos, tanto da pulsão sexual quanto os excessos da destrutividade da pulsão de morte é o amor, são os laços de amor. Portanto, esses três pontos, a possibilidade de reificar o sujeito, a possibilidade de mercantilizar o sujeito e a possibilidade de poder controlar os excessos, por uma via que não está muito na moda, são pontuações que nos levam a pensar que estas são as três grandes questões da atualidade.


Agora, podemos começar a pensar que na atualidade, falar de amor é ter que levar em conta sujeitos coisificados, mercantilizados e excessivos. Sujeitos que não são mais sujeitos, mas assujeitados a uma lógica que os transcende e, o que é pior, que eles acham que dominam. Como diz o filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek: “Quando imaginamos estar zombando da ideologia dominante, estamos apenas aumentando seu controle sobre nós”. Portanto, estamos inseridos numa cultura em que a ideologia dominante nos impele, nos pede para sermos excessivos desde que não corramos riscos, pois, exceder e morrer vai contra a lógica do capital. O ideal é que você exceda, mas exceda sem comprometer a sua integridade. Isso resulta, como nos aponta Zizek, numa cultura em que cada excesso já traga no seu bojo o antídoto. Por exemplo: beba muito café, desde que seja descafeinado; se entupa de creme de leite só que sem gordura; beba muito desde que seja cerveja sem álcool. E continuando com Zizek, estamos numa cultura do sexo virtual, esse sexo sem sexo, da guerra sem baixas, da democracia que faz guerra em nome da paz. Portanto estabelecer laços concretos de amor é ir contra essa ideologia que pede o tempo todo o consumo, inclusive, o consumo do outro, enquanto objeto. A atualidade traz consigo uma misteriosa fragilidade dos laços humanos, um amor líquido, como nos diz Bauman. A insegurança desta fragilidade estimula um paradoxo de querer estreitar esses laços, mas, ao mesmo tempo, mantê-los frouxos.


Me vem à mente a inevitável pergunta: Como a psicanálise, que na sua radicalidade busca a subjetivação e a canalização dos excessos mortíferos da pulsão, pode responder, tanto teórica quanto clinicamente à essa realidade, já que nós, analistas, também estamos inseridos nessa mesma cultura? Ou seja, estamos diante de um paradoxo, de um enigma. Por que isso? Freud, nas suas articulações teóricas, nos ensina que há algo em nós que quer coisificar o outro, anular o outro e exceder no outro. Portanto, é necessário que, nós psicanalistas, na nossa prática diária, não nos deixemos levar nem para uma posição adaptativa do sujeito, nem o seu contraponto da permissividade.


Para encerrar, vou fazer uma citação, que achei muito pertinente ao que acabei de articular sobre essas questões, que é uma citação de Maria Rita Kehl, desse mesmo artigo que eu havia citado anteriormente:


O analista adaptativo está aquém da proposta da psicanálise; quer seu paciente obediente a ele e aos códigos do sucesso social; quer que seu paciente bem adaptado e bem-sucedido o gratifique narcisicamente. Do outro lado, o analista “surdo” é prisioneiro do seu terror em relação aos riscos que essa relação a dois implica. Não consegue ouvir o sofrimento de seu paciente porque está tapado para todo e qualquer sofrimento, pretende estar acima dele e evita tudo o que possa apontar para a sua própria dor, que ele esperou ter superado para sempre através da sua própria análise”. “Também o analista deve abrir mão de sua onipotência, rever suas certezas centenas de vezes, considerar seus limites e sua ignorância, aceitar ser objeto do ódio - e não só do amor - de seu paciente, considerar que algumas (ou muitas) das críticas do analisando em relação a ele, talvez sejam justas e não somente fruto de confusões transferenciais. E, finalmente, o analista se arrisca sempre ao abandono porque quando um analisando entende profundamente a proposta libertadora da psicanálise ele se torna radical na sua exigência e não hesita em abandonar o analista que ficar aquém de sua enorme vontade de compreender e se libertar.”

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